O uso de sensores na avaliação da alteração da marcha em pessoas com esclerose múltipla

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O uso de sensores na avaliação da alteração da marcha em pessoas com esclerose múltipla
Sigla SEM
Aplicações Apoio terapêutico, Análise de dados
Conceitos relacionados Dados, Sensores, Esclerose Múltipla, Revisão Sistemática


Carlos Nascimento
Mestrado de Informática Médica
Universidade do Porto
up199704015@med.up.pt

Luis Carvalho
Mestrado de Informática Médica
Universidade do Porto
up201007548@med.up.pt

Sumário

Introdução: A Esclerose Múltipla (EM), ou esclerose em placas, é uma desordem crónica do sistema nervoso central. Pessoas com esclerose múltipla sofrem de disfunção motora e sensorial, o que contribui para problemas com a coordenação e o equilíbrio ao nível da marcha. Os sensores têm potencial para permitir uma monitorização longitudinal objetiva de pacientes com doenças neurológicas como a esclerose múltipla, não estando sujeitos a vieses de memória como acontece nas medidas clínicas baseadas no auto relato.

Objetivo: Validar o uso de sensores para avaliar a coordenação, o equilíbrio e a mobilidade ao nível da marcha entre as pessoas com Esclerose Múltipla.

Métodos: Realizou-se uma revisão sistemática de estudos observacionais com foco na avaliação de alterações na marcha utilizando sensores em adultos diagnosticados com Esclerose Múltipla. Realizou-se uma procura de artigos utilizando-se fundamentalmente as bases de dados online PubMed, SCOPUS, ISI Web of Knowledge e Cochrane library. Todos os estudos que preencheram os critérios de inclusão foram considerados para avaliação, independentemente do seu desenho de pesquisa, sendo eles estudos com pacientes adultos com Esclerose Múltipla escritos em inglês e em que o desenho de estudo fosse sobre o uso de sensores na avaliação da coordenação, o equilíbrio e a mobilidade ao nível da marcha. Não foi possível a realização de meta-análise devido à heterogeneidade entre os estudos incluídos, efetuamos por isso uma análise quantitativa para uma melhor síntese da evidência. Para avaliar a qualidade metodológica geral de cada estudo, utilizou-se a ferramenta de avaliação da qualidade (QATSDD), que inclui 16 itens, avaliados entre 0 e 3 (intervalo: 0 – 36).

Resultados: Dos 181 estudos identificados 30 foram revistos resultando 12 artigos para inclusão nesta revisão sistemática. As pontuações globais QATSDD variaram entre 16 e 25. Todos os estudos relataram o uso de acelerómetros, em que 67% utilizam acelerómetros tridimensionais e 33% utilizaram sensores inerciais. Relativamente à colocação dos sensores no corpo humano: 67% relataram a colocação de um sensor na região lombar ou sacral do tronco, enquanto 33% relataram a colocação dos dispositivos noutras zonas do corpo. Dos resultados calculados a partir dos sinais fornecidos pelos sensores, todos os estudos relataram parâmetros espaciais e temporais da marcha, sendo o movimento mais relatado as medidas de movimento ou aceleração do tronco (41% de estudos), velocidade e velocidade angular (58% de estudos).

Conclusão: Os sensores representam uma alternativa portátil e acessível em comparação com sistemas de análise de movimento tridimensional mais caros. São eficazes para a deteção de alterações na coordenação, equilíbrio a mobilidade ao nível da marcha entre PEM.

Palavras-chave - Multiple sclerosis, walking, gait, accelerometer, inertial sensor, systematic review.

Introdução

A Esclerose Múltipla (EM), ou esclerose em placas, é uma desordem crónica do sistema nervoso central. No desenvolvimento da doença uma parte da bainha de mielina envolvente dos nervos do cérebro e da medula espinal desintegra-se e deixa cicatrizes em forma de placas fibrosas e esclerosadas. Apresenta períodos de recaídas e de melhorias, com diversos sintomas sempre relacionados com patologias do sistema nervoso [1]. As limitações físicas são consideradas um problema chave em EM. Assim, pessoas com esclerose múltipla (PEM) sofrem de disfunção motora e sensorial, o que contribui para o aparecimento de problemas com a coordenação e o equilíbrio ao nível da marcha [2]. Um sintoma comum é a falta de mobilidade, levando a uma diminuição da qualidade de vida [3].

Os métodos contemporâneos para medir o nível de atividade física em PEM consistem em observações clínicas regulares. Contudo, estes métodos ou dependem dos relatos e da memória dos pacientes (por exemplo através de respostas a questionários), ou são conduzidos durante uma consulta particular com atividades predefinidas. Estas incluem a avaliação da marcha e da mobilidade. Qualquer deficiência na marcha pode representar um marcador, quer da incapacidade, quer da progressão da doença [1]. Embora seja um excelente marcador, não existe consenso quanto à ferramenta mais apropriada para avaliar PEM diagnosticadas há pouco tempo. Uma medida ideal deverá ser amplamente aplicável, fácil de administrar, clinicamente significativa, válida e confiável, ser sensível a alterações e permitir resultados reproduzíveis [4].

Para a avaliação das deficiências no equilíbrio e mobilidade na marcha em PEM, usam-se, na prática e em ensaios clínicos, uma série de medidas clínicas e auto relatos. As mais usadas incluem a Escala Expandida do Estado de Incapacidade (EDSS) e o teste cronometrado 25-Foot Walk (T25FW).

  • A EDSS é uma escala de dez pontos, em que zero indica exame neurológico normal, enquanto os valores mais altos indicam uma maior incapacidade. É considerado como o gold standart para avaliar a incapacidade em EM [5]. No entanto, o EDSS tem uma sensibilidade limitada nas alterações da avaliação da deficiência na marcha e está limitada pela variabilidade intra e inter-avaliadores [6], [7].
  • A Patient Determined Disease Steps (PDDS) é composta por nove níveis ordinais desde 0 (normal) até 8 (acamados), os resultados de PDDS podem ser convertidos para a escala EDDS e permitem classificar a disfunção resultante da doença em leve, moderada e severa.
  • A Escala de Escala de Impacto em EM (MSIS) é uma escala clínica de 29 pontos contendo 20 itens físicos (MSIS-20) em que os valores mais elevados indicam uma maior deficiência (variando entre 20 e 100).
  • O teste Timed Up and Go (TUG) permite avaliar o risco de queda de um paciente, tal como a sua fragilidade [5].
  • O Brief-Bestest consiste numa avaliação clínica de 8 itens para avaliar alterações no equilíbrio. Foi especificamente concebido para avaliar múltiplos contextos de alteração do equilíbrio e da marcha [8].
  • A Walking Scale-12 para EM (MSWS-12) é uma escala de classificação auto relatada muito usada na avaliação do impacto da EM na capacidade de andar. Inclui questões relativas ao equilíbrio e deficiência [9].
  • A Escala de Equilíbrio, de confiança e Atividades Específicas (ABC) é uma medida de auto relato com 16 itens em que os pacientes classificam a sua confiança no equilíbrio para a realizaçao de atividades [10].

Estas avaliações fornecidas pelas PEM embora válidas, são vulneráveis a problemas de memória e a preconceitos de auto relato.Portanto, é importante identificar um método objetivo para quantificar a deficiência na marcha em condições de vida real. Os avanços na tecnologia de sensores de movimento, já nos permitem o seu uso tanto em trabalho na clínica como em casa. Estes incluem acelerómetros, pedómetros, giroscópios e sensores inerciais (conjugam acelerómetros e giroscópios ou outros) utilizados junto ao corpo para amostrar e quantificar movimentos num espaço tridimensional (3D). Os dados fornecidos por estes sensores nas suas 3 dimensões aproximam-se muito dos obtidos na análise laboratorial de um movimento [11]. Os acelerómetros foram identificados como um possível gold standard, podendo fornecer medidas reais e objectivas ao serem usados pelas PEM na sua vida real [1]. A razão para isso reside no facto de os acelerómetros terem um sensor interno que pode quantificar o comportamento durante a marcha baseado em fases de aceleração do centro de massa e poder ser usado no corpo de uma pessoa ao longo da sua rotina diária.

Em outras doenças neurológicas como Parkinson, os sensores inerciais têm demonstrado uma enorme capacidade na deteção precoce de indivíduos com a doença quando comparados com os controlos, verifica-se uma correlação da gravidade da doença com a sensibilidade à evolução precoce de anomalias na oscilação postural [12]. Assim, os sensores inerciais, têm o potencial para permitir uma monitorização longitudinal objetiva de pacientes com doenças neurológicas como a esclerose múltipla.

Este estudo validou dados fornecidos pelos acelerómetros usados durante o dia a dia, com base em associações com as pontuações do EDSS, PDDS e MSWS- 12, o desempenho T25FW e 6 MW, e os parâmetros espaciais e temporais da marcha numa grande amostra de pessoas com esclerose múltipla que tinham uma ampla gama de deficiência. Esta informação vai providenciar uma indicação abrangente da validade das medidas da aceleração para avaliar a coordenação, o equilíbrio e a mobilidade ao nível da marcha entre as PEM. Isto vai ser importante para a afirmação do valor dos sensores de movimento na monitorização e avaliação da marcha em pesquisa/investigação e entre a comunidade clínica.

Material e métodos

Realizou-se uma revisão sistemática de estudos observacionais com foco na avaliação de alterações na marcha utilizando sensores em adultos diagnosticados com EM. Nesta revisão sistemática fez-se uma procura de artigos utilizando fundamentalmente as bases de dados online PubMed, SCOPUS, ISI Web of Knowledge e Cochrane library (Janeiro 2016).

O método incluiu a definição de critérios de elegibilidade, estratégias de pesquisa, seleção do estudo e características, medidas de resultados, síntese de dados quantitativos e análise de sensibilidade e qualidade metodológica dos estudos. Não foi possível a realização de meta-análise devido à heterogeneidade entre os estudos incluídos, efetuamos por isso uma análise quantitativa para uma melhor síntese da evidência.

Critérios de elegibilidade

Foram incluídos nesta revisão os estudos que avaliaram deficiências da marcha com sensores portáteis entre os pacientes diagnosticados com EM. Os critérios de inclusão foram: estudos com pacientes adultos com EM escritos em inglês e em que o desenho de estudo fosse sobre a avaliação de dificuldades de mobilidade avaliadas com qualquer tipo de sensores portáteis. Os critérios de exclusão foram: estudos não em Inglês, sem resumo/texto integral disponível, sem recurso a qualquer tipo de sensor portátil. Todos os estudos que preencheram os critérios de inclusão foram considerados para avaliação, independentemente do seu desenho de pesquisa.

Estratégia de pesquisa

Definiu-se uma query de pesquisa com vários termos, para reunir um conjunto mais sensível dos dados, filtrando assim os estudos que possam fornecer informações úteis sobre todos os tipos de avaliação das disfunções da marcha. Foram utilizadas as seguintes keywords e termos MeSH para pesquisa na PubMed: ("multiple sclerosis"[MeSH Terms] OR "multiple sclerosis"[All Fields]) AND (((("walking"[MeSH Terms] OR "walking"[All Fields] OR "walk"[All Fields]) OR ("gait"[MeSH Terms] OR "gait"[All Fields])) OR Balance[All Fields]) OR Stability[All Fields]) AND ((((("acceleration"[MeSH Terms] OR "acceleration"[All Fields]) OR Accelerometer[All Fields]) OR Gyroscope[All Fields]) OR Inertial[All Fields]) OR Sensor[All Fields]). Também foram realizadas pesquisas nas bases de dados Scopus, Cochrane library e ISI Web of Knowledge usando as mesmas keywords: (Multiple sclerosis AND (walking OR walk OR gait OR balance OR stability) AND (acceleration OR accelerometer OR inertial OR gyroscope OR sensor)).

Seleção dos estudos

Depois da pesquisa inicial da literatura, os artigos foram analisados e selecionados, independentemente, por dois revisores com base no título e resumo e aplicando os critérios de inclusão e exclusão. Todas e quaisquer discrepâncias entre as duas avaliações foram discutidas até que um consenso foi alcançado em relação a cada artigo. Uma vez concluído este processo, o texto integral dos artigos selecionados, foi avaliado pelos revisores, aplicando novamente os critérios de inclusão e exclusão.

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Figura 1 – Seleção dos estudos

Extração de dados

Extraíram-se os seguintes dados de cada estudo: tipo e número de participantes, a média de idades, duração e gravidade da doença, bem como o tipo e localização do sensor (s) utilizado (s) e as principais descobertas de cada estudo (Tabelas 1 e 2). Os estudos incluídos apresentaram uma série de resultados que procuraram obter uma melhor visão sobre as deficiências na marcha ao nível da coordenação e do equilíbrio evidentes em pessoas com EM e nestes incluem-se;, parâmetros espaciais e temporais da marcha, tais como, aceleração do tronco, estabilidade, mobilidade, velocidade e velocidade angular, número de passos e medidas clínicas.

Qualidade metodológica dos estudos incluídos

Para avaliar a qualidade metodológica geral de cada estudo, utilizou-se a ferramenta de avaliação da qualidade (QATSDD), desenvolvida por Sirriyeh et al. [13]. Esta ferramenta inclui 16 itens, avaliados entre 0 e 3, e pode ser aplicada a diferentes tipos de estudos usando diferentes abordagens. A cada item será dada uma pontuação, a soma destes irá fornecer uma pontuação global para o corpo de evidências que é expresso como uma percentagem da pontuação máxima possível. A aplicação desta ferramenta também permitirá comparar a qualidade metodológica dos estudos ao nível quantitativo, qualitativo ou misto dentro da mesma área de investigação. Contudo, não avaliamos 4 dos itens uma vez que não se enquadravam nos estudos selecionados, sendo assim consideramos uma pontuação máxima de 36.

Resultados

A busca inicial nas bases de dados identificou 349 artigos potencialmente elegíveis para inclusão nesta revisão. Dos 349 estudos identificados, 178 foram excluídos como duplicados, permanecendo 181. Depois da leitura de todos os títulos e resumos, foram excluídos 151 artigos, por não cumprirem os critérios de inclusão pretendidos. Após a revisão de texto completo dos restantes 30 estudos, foram excluídos mais 18 estudos, pelas seguintes razões: num estudo, não tivemos acesso ao texto integral, dois não eram específicos para EM, outros 8 sem os resultados esperados e os restantes 7 sem intervenção de interesse. Foram assim selecionados os restantes 12 artigos para inclusão nesta revisão sistemática. As principais características dos estudos, estão resumidos na Tabela 1.

Desenho de estudo e Qualidade metodológica

Todos os 12 estudos incluídos nesta revisão são estudos observacionais (Tabela 1), sete seguem um desenho transversal, que envolve a análise de dados colhidos numa população com EM usando diferentes tipos de sensores portáteis para observar ou identificar diferenças na marcha (andar e dificuldades de mobilidade). A escala QATSDD, desenvolvida por Sirriyeh et al., permite a comparação da qualidade dos trabalhos incluídos, mesmo quando os seus desenhos são diferentes. As pontuações globais QATSDD variaram entre 16 e 25. Os estudos incluídos apresentaram baixos/médios índices de qualidade, especialmente considerando a representatividade da amostra e a ausência de uma crítica/discussão dos pontos fortes e limitações.

Devido ao pequeno número de estudos revistos e a sua qualidade (pontuação QATSDD máximo de 25 em 36) média baixa, os resultados obtidos devem ser confirmados em investigações futuras. No entanto, este trabalho demonstra o seu interesse ao expor a relevância e impacto dos sensores no prognóstico e evolução da doença. Com base na avaliação da qualidade metodológica, quatro artigos foram identificados como sendo de baixa qualidade (intervalo = 44% para 53%), oito artigos eram de qualidade moderada (gama = 58% para 69%). Em geral, os artigos revisados tiveram desempenho fraco em critérios de justificativa para a escolha de instrumentos de recolha de dados, detalhe do recrutamento dos dados, evidência do envolvimento dos utilizadores no desenho.

Tipo e localização dos sensores

Vários tipos de sensores foram utilizados, dentro dos estudos incluídos, para avaliar medidas de alterações na coordenação, equilíbrio e mobilidade ao nível da marcha. Desses estudos, todos relataram o uso de acelerómetros, em que 67% utilizam acelerómetros tridimensionais [5], [11], [12], [14], [15], [16], [17], [18] e 33% utilizaram sensores inerciais [5], [ 11], [12], [18], nenhum relatou o uso de outros tipos de sensores. De igual modo, houve vários protocolos descritos no que diz respeito à colocação dos sensores sobre o corpo humano. Dos 12 estudos incluídos, 67% relataram a colocação de um sensor na região lombar ou sacral do tronco (aproximadamente no centro de massa corporal) [11], [12], [14], [15], [17], [18], [19], [20] e 33% relataram a colocação dos dispositivos noutras zonas do corpo (por exemplo, perna, pulso, tornozelo, cintura) [5], [16], [21], [22]. Detalhes sobre os estudos incluídos nesta revisão como o tipo e local de colocação do sensor, assim como as medidas resultantes do seu uso estão resumidos na Tabela 2.

Avaliação das deficiências da marcha

Dos 12 estudos incluídos, 75% usaram sensores portáteis para avaliar a caminhada durante os testes clínicos, como o teste Timed Up and Go [5], [18], [22] ou durante as avaliações da marcha em linha reta a uma velocidade auto selecionada [11], [12], [14], [16], [17], [18], [20], [22]. Uma vasta gama de frequências de amostragem foi utilizada para avaliar a estabilidade da marcha nos estudos revistos, com autores que relatam frequências de amostragem que variam entre 50 e 1024 Hz.

Os estudos incluídos reportaram vários resultados de medidas relacionadas com a marcha que foram calculadas a partir dos sinais fornecidos pelos sensores (por exemplo, acelerações). Destes resultados, todos os estudos relataram parâmetros espaciais e temporais da marcha, sendo o mais comummente relatado as medidas de movimento ou aceleração do tronco (41% dos estudos) [11], [12], [14], [15], [18],e velocidade e velocidade angular (58% de estudos) [11], [12], [15], [16], [17], [18], [20]. Um resumo onde se apresentam as medidas obtidas nos vários estudos é apresentado na Tabela 2.

Discussão

O objetivo desta revisão sistemática foi examinar a literatura existente para determinar se sensores portáteis poderiam ser usados para avaliar a coordenação, o equilíbrio e a mobilidade ao nível da marcha entre as PEM. Dos 12 estudos incluídos nesta revisão, nenhum relatou a forma de cálculo do tamanho da amostra, mas em 33% dos estudos a amostra era menor ou igual a 20 participantes em cada um dos seus grupos [12], [14], [15], [17] e 17% tinham pelo menos um grupo com menos do que este número [11], [21]. É importante ressaltar que um grande tamanho da amostra nem sempre é necessário para abordar uma questão de pesquisa específica, sendo que a força estatística de um resultado é benéfica para a determinação do rigor global dos resultados relatados. A partir dos estudos selecionados 58% descreveram diferenças entre diferentes grupos com EM e/ou um grupo de controlo saudável para uma ou mais das suas medidas baseadas em parâmetros da marcha e de mobilidade fornecida pelos sensores [5], [11], [12], [15], [18], [21], [22].

Os estudos incluídos avaliaram um total de 594 participantes (excluindo controlos), contendo grupos entre 11 e 70 participantes (média aproximadamente igual a 50 participantes). A idade média dos participantes nos estudos incluídos foi de 47 anos (entre 40 - 54 anos). Todos os participantes têm diagnóstico confirmado para EM, com uma duração média com doença de 10 anos (entre 4 – 12,2 anos), verifica-se por análise dos dados na tabela 1 uma grande heterogeneidade dos grupos no que diz respeito a este campo.

Comparando a capacidade de resposta das medidas fornecidas a partir de um sensor versus aqueles obtidos na clínica (desempenho, fisiológicas e avaliações auto relatadas) para a captura de alterações na marcha observamos em todos os estudos uma forte correlação entre os dados obtidos através do uso de sensores, os auto relatados e as medidas de desempenho em PEM, tais resultados são consistentes com pesquisas anteriores. Estes dados permitem a validação do uso de sensores em condições de vida real como uma medida do comportamento da marcha baseada em associações com EDSS e a pontuação obtida para as escalas MSWS-12, tal como ao nível da performance nos testes T25FW e 6MW e dos parâmetros espaciais e temporais da marcha numa grande amostra de PEM e que apresentavam uma vasta gama de deficiência.

<p align="justify"Alguns estudos utilizaram sensores para avaliar diferenças entre PEM e indivíduos de controlo ou para medir a diferença depois de um programa de reabilitação em PEM. Greene et al. mostraram que avaliando a mobilidade dos doentes com EM, estes podem ser distinguidos dos controlos saudáveis, com 96,90% de precisão (sensibilidade de 94,87%, 96,36% de especificidade) [5], enquanto que os testes tradicionais cronometrados não o fizeram. Esta tecnologia portátil oferece dados objetivos e quantitativos de mobilidade que, anteriormente, não podiam ser obtidos na clínica, e pode revelar-se uma medida de resultado útil para detecção de mudanças na mobilidade precocemente em PEM [18].</p>

Depois de um programa de reabilitação, Hilfiker et al. relataram um pequeno efeito positivo no equilíbrio estático e uma melhoria da estabilidade dinâmica local e velocidade na caminhada [14]. Da mesma maneira, medidas do movimento do tronco, da velocidade da marcha e da variabilidade do padrão de aceleração, quando se utilizam acelerómetros e giroscópios 3D, levam à conclusão que PEM mostram uma alteração da estrutura da variabilidade do tronco durante a marcha em comparação com os controlos [15].

A variabilidade pode ser um indicador chave de agravamento da marcha, equilíbrio e incapacidade em EM. O desempenho em testes de mobilidade e medidas de auto avaliação foi pior no grupo dos moderadamente deficientes, melhor no grupo dos levemente deficientes e o melhor entre os controles. A variabilidade no desempenho entre as sessões pode ser maior no grupo das PEM com maior deficiência, sugerindo que a variabilidade de desempenho pode ser um bom indicador do estado de deficiência e da progressão da doença [11].

Verificou-se que os dados fornecidos pelos sensores refletem o comportamento da marcha e estão relacionados com outras medidas, incluindo o auto relatório, a análise clínica do desempenho e dos parâmetros da marcha em PEM. Um estudo relatou correlações moderadas entre os dados fornecidos pelo acelerómetro e parâmetros da marcha medidos em pessoas com EM [19]. O uso de um acelerómetro na cintura permite avaliar variações intra e inter-pessoa durante a marcha, suportando um dos pressupostos subjacentes à validade do uso e interpretação da acelerometria como medida objetiva da vida real e do comportamento durante a marcha em PEM [16]. Os sensores poderão ser importantes para monitorizar e reunir informações sobre a atividade física diária em PEM em casa e assim se obterem dados mais específicos para a determinação do avanço da doença. Estudos mostram que medidas objetivas usando acelerómetros 3D podem acompanhar diariamente a flutuação da atividade física. Além disso, permitem um seguimento da doença de forma mais eficiente que as medidas clínicas. Assim, eles podem ajudar a desenvolver tratamentos baseados na atividade para PEM [17].

Anormalidades na oscilação postural, em PEM numa fase inicial da doença, foram detetadas usando sensores inerciais sem fio e relevando assim uma maior sensibilidade na identificação da perda de equilíbrio relativamente aos dados clínicos [12]. Sensores podem ajudar na métrica de contagem total de movimento diário relacionando-o com o nível de deficiência. A variabilidade, indexada pelo desvio padrão da contagem de movimento diário, correlaciona-se com a EM e o nível de incapacidade relatada, o estado clínico e o comprometimento da marcha auto relatado. Estes resultados fornecem evidências de que a variabilidade nas contagens/medidas dos acelerómetros não são simplesmente ruído e podem fornecer informações importantes sobre alterações na marcha relacionadas com a EM [21].

Alguns exemplos dos sensores utilizados são Actibelt1 e Actigraph. O Actibelt1 permite monitorizar a velocidade da marcha na vida real em PEM, mas é necessário cautela ao interpretar a precisão desses dados em PEM com deficiência moderada e grave [20]. Os dados fornecidos pelos acelerómetros Actigraph aparentemente fornecem uma medida da mobilidade durante a marcha, não da atividade física, em pessoas com EM. A inclusão simultânea dos sensores com a 6MW ou TUG podem fornecer uma medida mais abrangente das alterações na marcha na investigação clínica e práticas que envolvam PEM [22]. No entanto, mais investigação é necessária para confirmar se as medidas baseadas em sensores são adequadas para avaliar as disfunções na marcha nesta população.

Há uma série de limitações que devem ser consideradas na interpretação dos resultados desta revisão. Em primeiro lugar, os resultados da avaliação da qualidade metodológica, são baseados na interpretação dos revisores de cada um dos estudos. Em segundo lugar, dado o número relativamente pequeno de estudos publicados nesta área e a grande variedade de questões de pesquisa dirigida usando sensores portáteis, é difícil fazer recomendações fortes sobre o equipamento mais adequado, posicionamentos e resultados para avaliar as alterações na marcha em PEM.

À luz destas limitações, os resultados apresentados nesta revisão sistemática devem ser considerados preliminares e será necessário realizar trabalho adicional para que este campo da ciência continue a evoluir.

Em conclusão, os sensores são uma alternativa portátil e acessível em comparação com sistemas de análise de movimento tridimensional mais caros. São eficazes para a detecção de mudanças de marcha e mobilidade entre PEM. Há provas substanciais de que os acelerómetros fornecem medidas do comportamento da marcha em PEM. Observou-se de um modo geral uma forte correlação entre os dados fornecidos pelos sensores, o auto relato e as medidas de desempenho da marcha em pessoas com EM. Os acelerómetros disponíveis atualmente no mercado devido ao seu baixo consumo e a capacidade de medição quantitativa são muito utilizados para a avaliar o equilíbrio e alterações da marcha. Eles podem constituir por isso uma alternativa para uso quer por clínicos, quer por investigadores em EM, na avaliação dessas alterações em meios controlados e em casa dos pacientes durante a realização das atividades da vida diária, mais perto da realidade e por isso permitindo uma avaliação ajustada à realidade durante a realização de pesquisas e monitorização do estado do paciente.

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  18. 18,0 18,1 18,2 18,3 18,4 18,5 18,6 18,7 18,8 R. I. Spain, R. J. St George, A. Salarian, M. Mancini, J. M. Wagner, F. B. Horak, and D. Bourdette, “Body-worn motion sensors detect balance and gait deficits in people with multiple sclerosis who have normal walking speed.,” Gait Posture, vol. 35, no. 4, pp. 573–578, Apr. 2012.
  19. 19,0 19,1 R. W. Motl, L. Pilutti, B. M. Sandroff, D. Dlugonski, J. J. Sosnoff, and J. H. Pula, “Accelerometry as a measure of walking behavior in multiple sclerosis,” Acta Neurol. Scand., vol. 127, no. 6, pp. 384–390, 2013.
  20. 20,0 20,1 20,2 20,3 R. W. Motl, M. Weikert, Y. Suh, J. J. Sosnoff, J. Pula, C. Soaz, M. Schimpl, C. Lederer, and M. Daumer, “Accuracy of the actibelt((R)) accelerometer for measuring walking speed in a controlled environment among persons with multiple sclerosis.,” Gait Posture, vol. 35, no. 2, pp. 192–196, Feb. 2012.
  21. 21,0 21,1 21,2 21,3 J. J. Sosnoff, M. D. Goldman, and R. W. Motl, “Real-life walking impairment in multiple sclerosis: preliminary comparison of four methods for processing accelerometry data.,” Mult. Scler., vol. 16, no. 7, pp. 868–877, Jul. 2010.
  22. 22,0 22,1 22,2 22,3 22,4 M. Weikert, Y. Suh, A. Lane, B. Sandroff, D. Dlugonski, B. Fernhall, and R. W. Motl, “Accelerometry is associated with walking mobility, not physical activity, in persons with multiple sclerosis,” Med. Eng. Phys., vol. 34, no. 5, pp. 590–597, 2012.

Anexos

Tabela 1. Sumário das principais características dos grupos de PEM e á avaliação metodológica dos estudos incluídos nesta revisão sistemática.

Tabela 1a.png

EDSS: Escala Expandida do Estado de Incapacidade; F: Feminino; M: Masculino; NR: Não Reportado; PDDS: Patient Determined Disease Steps; PEM: pessoas com esclerose múltipla;



Tabela 2. Sumário das principais características dos sensores utilizados, a sua localização e as principais descobertas dos estudos incluídos nesta revisão sistemática.

Tabela 2a.png

EDL: Estabilidade Dinâmica Local; Freq.: Frequência; GLTEQ: Godin Leisure-Time Exercise Questionnaire; IPAQ: International Physical Activity Questionnaire; MSWS-12: Multiple sclerosis walking scale-12; PEM: pessoas com esclerose múltipla; SR-EDSS: Escala Expandida do Estado de Incapacidade – auto relatada; T25FW: 25 meter walk test; TUG: Timed up and go; 3MW: 3 minute walk test; 6MW: 6 minute walk test; 10-mW: 10 meter walk test.