Diferenças entre edições de "Recomendações para o Ensino da Informática da Saúde"

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== Recomendações da [[Associação de Informática Médica Americana|AMIA]] ==
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De acordo com diversos autores citados pela [[Associação de Informática Médica Americana]], existe uma evidência crescente de que as tecnologias da informação (TI) contribuem para a melhoria da saúde, dos cuidados de saúde e da investigação biomédica. As revisões sistemáticas que têm vindo a ser feitas, foram capazes de documentar essa evidência no que refere os '''sistemas de apoio à decisão clínica''', a '''intervenção das tecnologias da informação e da comunicação''' e a '''telemedicina'''. Isto tem levado ao uso generalizado das TI pelo mundo inteiro.
  
Resultados de aprendizagem recomendados e opcionais em termos de nível de conhecimento e de competências para profissionais da saúde, seja no seu papel de utilizadores de tecnologias da informação (TI), seja no seu papel de especialistas da informática biomédica.
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Mas não só tem aumentado a investigação e a aplicação da informática na saúde e na biomedicina, como têm vindo a desenvolver-se outras áreas relacionadas, nomeadamente a informática para a investigação clínica e a própria bioinformática. Mais ainda, o desenvolvimento das tecnologias da informação para a saúde tem levado ao reconhecimento de que existe a necessidade de desenvolver programas educacionais capazes de ensinar/treinar profissionais qualificados, preparando-os para desenvolver, implementar e avaliar estes sistemas.
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Independentemente dos benefícios identificados, ainda existem muitas barreiras na aplicação das TI em contexto clínico, incluindo o desfasamento no retorno de investimento entre aqueles que pagam pelas tecnologias e aqueles que delas beneficiam e a falta de standards e interoperabilidade de sistemas, assim como questões sobre privacidade e confidencialidade.
 
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Uma das principais barreiras é a pouco estudada e quantificada (mas altamente reconhecida) caracterização da força de trabalho nesta área e a formação necessária para a implementação de sistemas de informação em saúde da forma mais efetiva.
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Um desafio adicional é, ainda, a variedade de definições para o campo da informática em saúde (IS) e, até mesmo, a dificuldade em concordar no adjetivo que deve aparecer à frente da palavra '''informática''' (i.e. médica, biomédica e/ou saúde) ou no nome do profissional da área.
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Falta também definir onde acabam as TI puras e começa a informática - um indíviduo que instala aplicações num ''desktop'' num hospital não precisará do mesmo tipo de aprendizagem formal que um CIO ou um gestor de projeto.
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Esta falta de definições tem chamado a Informática da Saúde a transformar-se numa disciplina e, assim, adquirir os atributos de uma profissão, um conjunto definido de competências, certificações e capacidade para exercer, uma identidade profissional partilhada, um compromisso a longo prazo e um código de ética.
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== Porquê definir uma framework para o ensino da Informática da Saúde ==
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Existem muitas oportunidades a nível mundial para obter educação nesta área. Em alguns países, existem programas educacionais extensivos em diferentes níveis de educação para as diferentes profissões dos cuidados de saúde. Muitos outros países, no entanto, não têm qualquer tipo de oferta educacional em informática da saúde ou oferecem programas insuficientes, com todas as consequências para a qualidade e efetividade dos cuidados de saúde que daí resultam.
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Precisamente porque existe uma grande variedade de programas educacionais e de sistemas de saúde pelo mundo inteiro, cursos em Informática da Saúde podem variar muito entre diferentes países. Independentemente desta variabilidade, podem ser identificadas semelhanças básicas na educação em IS e usadas como ''framework'' para a criação de recomendações.
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As recomendações são necessárias para uniformizar os programas educacionais, permitindo o '''intercâmbio internacional''' de estudantes e professores e a criação de '''programas internacionais'''.
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<div style="font-size: 80%;"><div style="color: blue;">Fonte:</div>MANTAS, J., ''et al''. <u>Recomendations of the International Medical Informatics Association (IMIA) on Education in Biomedical and Health Informatics - 1st Revision</u>.</div>

Edição atual desde as 20h06min de 10 de novembro de 2016

De acordo com diversos autores citados pela Associação de Informática Médica Americana, existe uma evidência crescente de que as tecnologias da informação (TI) contribuem para a melhoria da saúde, dos cuidados de saúde e da investigação biomédica. As revisões sistemáticas que têm vindo a ser feitas, foram capazes de documentar essa evidência no que refere os sistemas de apoio à decisão clínica, a intervenção das tecnologias da informação e da comunicação e a telemedicina. Isto tem levado ao uso generalizado das TI pelo mundo inteiro.


Mas não só tem aumentado a investigação e a aplicação da informática na saúde e na biomedicina, como têm vindo a desenvolver-se outras áreas relacionadas, nomeadamente a informática para a investigação clínica e a própria bioinformática. Mais ainda, o desenvolvimento das tecnologias da informação para a saúde tem levado ao reconhecimento de que existe a necessidade de desenvolver programas educacionais capazes de ensinar/treinar profissionais qualificados, preparando-os para desenvolver, implementar e avaliar estes sistemas.


Principais desafios

Independentemente dos benefícios identificados, ainda existem muitas barreiras na aplicação das TI em contexto clínico, incluindo o desfasamento no retorno de investimento entre aqueles que pagam pelas tecnologias e aqueles que delas beneficiam e a falta de standards e interoperabilidade de sistemas, assim como questões sobre privacidade e confidencialidade.
Uma das principais barreiras é a pouco estudada e quantificada (mas altamente reconhecida) caracterização da força de trabalho nesta área e a formação necessária para a implementação de sistemas de informação em saúde da forma mais efetiva.


Um desafio adicional é, ainda, a variedade de definições para o campo da informática em saúde (IS) e, até mesmo, a dificuldade em concordar no adjetivo que deve aparecer à frente da palavra informática (i.e. médica, biomédica e/ou saúde) ou no nome do profissional da área.
Falta também definir onde acabam as TI puras e começa a informática - um indíviduo que instala aplicações num desktop num hospital não precisará do mesmo tipo de aprendizagem formal que um CIO ou um gestor de projeto.


Esta falta de definições tem chamado a Informática da Saúde a transformar-se numa disciplina e, assim, adquirir os atributos de uma profissão, um conjunto definido de competências, certificações e capacidade para exercer, uma identidade profissional partilhada, um compromisso a longo prazo e um código de ética.


Porquê definir uma framework para o ensino da Informática da Saúde

Existem muitas oportunidades a nível mundial para obter educação nesta área. Em alguns países, existem programas educacionais extensivos em diferentes níveis de educação para as diferentes profissões dos cuidados de saúde. Muitos outros países, no entanto, não têm qualquer tipo de oferta educacional em informática da saúde ou oferecem programas insuficientes, com todas as consequências para a qualidade e efetividade dos cuidados de saúde que daí resultam.


Precisamente porque existe uma grande variedade de programas educacionais e de sistemas de saúde pelo mundo inteiro, cursos em Informática da Saúde podem variar muito entre diferentes países. Independentemente desta variabilidade, podem ser identificadas semelhanças básicas na educação em IS e usadas como framework para a criação de recomendações.
As recomendações são necessárias para uniformizar os programas educacionais, permitindo o intercâmbio internacional de estudantes e professores e a criação de programas internacionais.


Recomendações

Níveis recomendados:

  • + = introdutório;
  • ++ = intermédio;
  • +++ = avançado.
Domínio de Conhecimento Nível
Utilizador Especialista
(1) Conhecimentos e competências chave da Informática da Saúde
1.1 Evolução da informática como disciplina e como profissão + +
1.2 Necessidade de processamento sistemático de informação nos cuidados de saúde, benefícios e restrições da tecnologia da informação nos cuidados de saúde ++ ++
1.3 Uso eficiente e responsável das ferramentas de processamento de informação para apoiar os profissionais de saúde na sua atividade e na tomada de decisão ++ ++
1.4 Uso de software aplicacional pessoal para documentação, comunicação pessoal incluindo acesso à Internet, para publicação e estatística básica ++ ++
1.5 Literacia da informação: classificação de bibliotecas e relacionadas com a saúde e respetivos códigos, métodos de pesquisa de literatura, métodos de investigação e paradigmas de investigação + ++
1.6 Características, funcionalidades e exemplos de sistemas de informação em saúde (ex. sistemas de informação clínica, sistemas de informação de cuidados primários, etc.) + +++
1.7 Arquiteturas de sistemas de informação na saúde; abordagens e standards para comunicação e cooperação e para a interface e integração de componentes, paradigmas das arquiteturas (ex. arquiteturas orientadas ao serviço) ++
1.8 Gestão de sistemas de informação na saúde (gestão de informação de saúde, gestão de informação estratégica e tática, administração de TI, gestão de serviços TI, questões legais e regulamentares) + +++
1.9 Características, funcionalidades e exemplos de para o apoio de pacientes e do público (ex. arquiteturas e aplicações de sistemas de informação orientados ao paciente, registos de saúde pessoais, sistemas de informação de sensores) +
1.10 Métodos e abordagens para networking regional e (eSaúde, aplicações de telemática em saúde e intercâmbio de informação inter-organizacional) + ++
1.11 Documentação apropriada e princípios da gestão de dados em saúde, incluindo a habilidade para usar sistemas de codificação médicos e de saúde, construção de sistemas de codificação médicos e de saúde + +++
1.12 Princípios estruturais, de design e de análise de registos de saúde, incluindo noções de qualidade de dados, conjuntos de data mínimos, arquitetura e aplicações gerais do + +++
1.13 Questões sócio-organizacionais e sócio-técnicas, incluindo a modelação e reorganização de workflows/processos + ++
1.14 Princípios da representação e da análise de dados usando fontes de informação primárias e secundárias, princípios da extração de dados, armazéns de dados, gestão do conhecimento ++
1.15 Modelação e simulação biomédicas +
1.16 Questões éticas e de, incluindo a responsabilização dos prestadores de cuidados, gestores e especialistas em Informática Biomédica, e de confidencialidade, privacidade e segurança dos dados de pacientes + ++
1.17 Nomenclaturas, vocabulários, terminologias, ontologias e taxonomias ++
1.18 Ferramentas e métodos informáticos no apoio à, incluindo aprendizagem flexível e à distância, uso de tecnologias educacionais relevantes, incluindo a Internet e a World Wide Web +
1.19 Avaliação de sistemas de informação, incluindo estudo do design, métodos (quantitativos e qualitativos) de seleção e triangulação, avaliação de resultados e impactos, avaliação económica, consequências imprevistas, revisões sistemáticas e meta-análises, informática em saúde baseada na evidência ++
(2) Medicina, Saúde e Biociências, Organização de Sistema de Saúde
2.1 Fundamentos do funcionamento humano e das biociências (anatomia, fisiologia, microbiologia, genómica e disciplinas clínicas como medicina interna, cirurgia, etc.) + +
2.2 Fundamentos do que constitui a saúde, desde perspetivas fisiológicas, sociológicas, nutricionais, emocionais, ambientais, culturais e espirituais e a sua análise + +
2.3 Princípios da tomada de decisão médica, do diagnóstico e das estratégias terapêuticas + ++
2.4 Organização das instituições de saúde e do sistema de saúde em geral, aspetos interorganizacionais, cuidados partilhados + +++
2.5 Frameworks para políticas e regulamentação do uso de informação nos cuidados de saúde +
2.6 Princípios da medicina e enfermagem baseada em evidência + +
2.7 Administração da saúde, economia da saúde, gestão da qualidade da saúde e gestão de recursos, iniciativas para a segurança do paciente, serviços da saúde pública e medição de resultados ++
(3) Informática/Ciência dos Computadores, Matemática, Biometria
3.1 Terminologia informática básica, como dados, informação, conhecimento, hardware, software, computador, redes, sistemas de informação, gestão de sistemas de informação + +++
3.2 Capacidade para usar computadores pessoais, processamento de texto e folhas de cálculo, sistemas de gestão de bases de dados ++ +++
3.3 Capacidade para comunicar eletronicamente, incluindo intercâmbio eletrónico de dados com outros profissionais de saúde, uso de internet/intranet ++ +++
3.4 Métodos da informática/ciência dos computadores prática, especialmente sobre linguagens de programação, engenharia de software, estruturas de dados, sistemas de gestão de bases de dados, ferramentas de modelação de dados e informação, prática e teoria dos sistemas de informação, engenharia do conhecimento, representação e aquisição (de conceitos), arquiteturas de software +++
3.5 Métodos da informática/ciência dos computadores teórica, como teoria da complexidade, encriptação/segurança ++
3.6 Métodos da informática/ciência dos computadores técnica, arquitetura de redes e topologias, telecomunicações, tecnologia wireless, realidade virtual, multimédia ++
3.7 Métodos para a interface e integração de componentes de sistemas de informação nos cuidados de saúde, standards de interface, identificadores de múltiplos pacientes ++
3.8 Gestão do ciclo de vida dos sistemas de informação: análise, especificação de requisitos, implementação e/ou seleção de sistemas de informação, gestão do risco, treinamento do utilizador + +++
3.9 Métodos da gestão de projetos e da gestão de mudanças (ex.: planeamento de projetos, gestão de recursos, gestão de equipas, gestão de conflitos, colaboração e motivação, teorias da mudança, estratégias de mudança) + +++
3.10 Matemática: álgebra, análise, lógica, matemática numérica, teoria da probabilidade e estatística, criptografia ++
3.11 Biometria e epidemiologia, incluindo design de estudo ++
3.12 Métodos para o apoio à decisão e a sua aplicação na gestão do paciente, aquisição, representação e engenharia do conhecimento médico; construção e utilização de orientações clínicas + +++
3.13 Conceitos básicos e aplicações da computação ubíqua (ex.: pervasiva, tecnologias de sensor e de ambiente nos cuidados de saúde, tecnologias facilitadoras da saúde, sistemas de saúde ubíquos e ambient assisted living) +
3.14 Engenharia da usabilidade, interação humano-computador, avaliação de usabilidade, aspetos cognitivos do processamento de informação ++
(4) Módulos opcionais em Informática da Saúde e campos relacionados
4.1 Imagem biomédica e processamento de sinal +-+++
4.2 Tecnologias facilitadoras da saúde, sistemas de saúde ubíquos e ambient assisted living +-+++
4.3 Bioinformática médica e biologia computacional +-+++
4.4 Quimioinformática médica +-+++
4.5 Ciências da informação médicas +-+++
4.6 Nanoinformática médica +-+++
4.7 Robótica médica +-+++
4.8 Informática médica pública +-+++


Fonte:
MANTAS, J., et al. Recomendations of the International Medical Informatics Association (IMIA) on Education in Biomedical and Health Informatics - 1st Revision.